Qualidade que faz a diferença
Depois de experimentar curva ascendente nas exportações e manter o otimismo em relação à produção de lácteos, o Brasil encara o desafio de evoluir na qualidade e variedade dos produtos e na administração da produção do leite para conquistar novos mercados
Um caminho só de ida. É assim que a cadeia produtiva do leite prefere imaginar a situação do Brasil em relação às exportações de lácteos, que tiveram ascensão em 2004 e se mantiveram firmes na ?linha verde? em 2005. Apesar de enfrentar grandes problemas em relação ao ainda baixo consumo interno de leite, o País conseguiu marcar seu território no mercado internacional. O saldo da balança comercial de lácteos foi de US$ 8,9 milhões no ano passado, inferior ao valor obtido em 2004, quando o superávit foi de US$ 11,5 milhões, mas, demonstrou que o potencial brasileiro nesse setor é valioso. Toda essa realidade bate à porta em 2006 ditando dois novos desafios para produtores e laticínios: diversificar os produtos e garantir qualidade, a fim de ampliar o consumo.
O produtor amargou certa frustração no apagar das luzes no ano passado. O otimismo gerado pelo desempenho do setor em 2004 fez com que o investimento fosse maior na produção de leite e, conseqüentemente, o aumento de oferta desencadeou a queda dos preços no mercado. Um custo um pouco menor relacionado à nutrição do rebanho também contribuiu para o aquecimento na produção. Os preços de concentrados, por exemplo, recuaram 6,6% em relação aos números de 2004. Preços de farelo de soja, milho e algodão também caíram (dados da Scot Consultoria).
Na avaliação do Cepea/Esalq (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da Universidade de São Paulo, o bom desempenho do setor lácteo chegou a ser sentido pelo produtor até meados de junho, quando os preços brutos pagos estavam em média R$ 0,593 o litro, chegando em São Paulo à casa de R$ 0,62 o litro. Mas, a partir de julho, os indicadores econômicos ?azedaram? o panorama. As exportações tiveram volume acumulado de julho a novembro 6,17% menor do que o embarcado no mesmo período de 2004. Felizmente, a receita, em dólar, foi elevada em 16,9%. Como nada é perfeito, a desvalorização do dólar frente ao real na comparação dos dois períodos acabou diminuindo o montante em reais nas mãos dos exportadores brasileiros, segundo estudo do Cepea. Para o presidente da Comissão Nacional da Pecuária de Leite (CNPL/CNA), Rodrigo Alvim, um fator que contribui para esse cenário é a política brasileira de juros reais elevados. Alvim explica que isso reduz a capacidade competitiva dos produtos nacionais no mercado externo. ?É preciso baixar as taxas de juros, sob pena de prejudicar cada vez mais o setor produtivo?, afirma.
Os pesquisadores do Cepea ainda observaram que, até o final do ano passado, a média Brasil havia recuado 27,92%. Os estados que mais sofreram com isso foram Goiás, São Paulo e Paraná. O recuo de dezembro frente a novembro foi de 4,37%, com o valor médio pago ao produtor de R$ 0,4274/litro. Descontando-se frete e o INSS, o produtor de leite em dezembro recebeu pelo litro R$ 0,4018. As maiores quedas foram registradas nas mesorregiões do Centro-Sul Baiano (-13,3%), Centro-Goiano (-13,2%) e em São José do Rio Preto (-8,6%). Já as praças do Sul do País tiveram os menores recuos, apesar de os valores nas praças do RS, SC e PR já estarem relativamente baixos.
Outros horizontes
Para expandir e driblar as pedras no caminho o setor lácteo investe na administração, diversificação e no controle de qualidade de seus produtos. Jair Jorge Leandro, maître fromagier, representante da empresa Boa Nata, é um dos maiores especialistas de queijos no País e garante que o consumidor está mais exigente. ?O trade quer excelência em serviço e em atendimento. Para essa categoria, o importante é ter muitas informações sobre o produto. Para o consumidor final, o importante é variedade, qualidade e preços acessíveis?, explica. Jair menciona que o Brasil é o 6º maior produtor de queijos no mundo e que, à medida em que se consolida nesse mercado, os benefícios são revertidos para o produtor primário (produtor de leite) e para o produtor de queijo. ?Há uma produção excedente que passa a ser exportada, além, é claro, de o País diminuir a importação deste produto?, conclui.
A Boa Nata, considerada uma das cinco maiores fornecedoras de queijos para supermercados no Brasil, detém uma considerável fatia do mercado no Rio de Janeiro e, de olho na expansão de seus produtos para o cliente interno, está ampliando o atendimento levando seus queijos especiais para São Paulo. A marca possui mais de 25 tipos de queijos e já garimpou até mesmo a clientela do Nordeste brasileiro. O primeiro a aguçar o paladar do paulistano é o queijo Creme Bola. Introduzido no Brasil por pioneiros dinamarqueses na década de 20, no século passado, é inspirado no queijo Molbo ? um dos grandes queijos da Dinamarca. Macio e cremoso, é esférico e possui olhaduras ? os populares ?furos? ? naturais, regulares e bem distribuídas, conseqüência do rigoroso processo de maturação por que passa. O Creme Bola tem um sabor único, suave, mas marcante. O maître fromagier Jair Jorge Leandro diz que a qualidade de consistência e sabor do Creme Bola se deve à localização privilegiada das fábricas. ?A riqueza do solo e a adequação do clima, por exemplo, traduzem-se em certa qualidade do leite. Minas Gerais é o melhor lugar da América do Sul para a produção de queijos?, afirma.
O controle de qualidade está presente. Todo o leite utilizado na fabricação dos produtos é captado em regiões específicas e é submetido a rigorosas análises, tanto na plataforma de recepção das fábricas, quanto no campo, onde uma equipe de médicos veterinários oferece completa assistência aos rebanhos dos fornecedores. A alimentação do gado e até a seleção dos animais são observadas com atenção pelos profissionais.
No quesito distribuição, a empresa conta agora com a parceria da Mont-Joli Queijos Especiais, que foi a primeira empresa ?Master Brooker? a ser criada no Brasil para atender a toda a cadeia de serviços que envolvem a comercialização de queijos. A empresa cobre desde a venda para clientes de todos os portes, coordenação logística, promoção no ponto de venda e treinamento específico sobre queijos até a divulgação dos produtos através de palestras e eventos.
Ter atenção com a forma de distribuição dos produtos e com a qualidade da matéria-prima é primordial, segundo os dirigentes da Boa Nata. A opinião é compartilhada pela Danone, empresa de renome mundial e que tem como premissa atender às exigências dos consumidores. ?A Danone trabalha com padrões que atendem às exigências dos consumidores por alimentos saudáveis, nutritivos, saborosos e de qualidade comprovada. Para estar à altura desse anseios do mercado, fomos os pioneiros no pagamento por qualidade e estamos desenvolvendo trabalhos de campo que auxiliam os produtores na condução de sua atividade?, afirma Carlos Gimenes, supervisor de Fomento da empresa. A bonificação, de acordo com Carlos, é um benefício adquirido pelo setor que veio para adequar o Brasil à realidade do mercado e possibilitar o crescimento de toda a cadeia do leite.
No final do ano passado a Danone deu mais um passo em nome da qualidade. A empresa lançou um sistema, o Ganet, composto por um software de gestão de custo alimentar e por um site na Internet (www.ganetworld.com), no qual o produtor de leite pode visualizar seus dados e compará-los com os demais produtores incluídos no projeto. ?O Brasil é um dos maiores produtores de leite do mundo, temos todas as características para alcançar a maior eficiência no segmento. Iniciativas como essa são de suma importância para o apoio ao desenvolvimento da pecuária nacional?, enfatiza o supervisor de Fomento.
Com o software é possível realizar a rastreabilidade da origem dos insumos destinados à dieta dos animais e obter a análise detalhada dos gastos com a alimentação da fazenda cadastrada. Carlos ressalta que o controle de gestão da atividade leiteira do Ganet contempla conceitos técnicos, científicos e administrativos da produção de leite, que quando interpretados de maneira correta podem fornecer informações importantes para a melhoria no lucro com a atividade leiteira. ?O objetivo do programa é oferecer conhecimentos técnicos e gerenciais, possibilitando uma melhora no controle organizacional das fazendas e garantindo a rastreabilidade dos alimentos oferecidos aos rebanhos. A aproximação de fornecedores e compradores, a consultoria tecnológica com foco no controle gerencial, o trabalho com grupos de produtores e o efeito demonstração por meio dos resultados e a avaliação sistemática dos dados do Ganet são os diferenciais do programa?, finaliza.
Box: Como manter a qualidade do queijo?
Temperatura
Para a conservação a temperatura ideal situa-se no intervalo entre 6º e 10º C. Na geladeira doméstica, o melhor local para a estocagem é na parte reservada às verduras.
Evitar contaminações
Todos os queijos devem ser armazenados protegidos do meio ambiente. Pode-se deixá-los com a sua embalagem original ou colocá-lo em um saco plástico, bem fechado.
Acompanhamento
Deve-se fazer uma análise visual por semana para a detecção de pontos de mofo, que se constatados, devem ser retirados com o auxílio de uma faca. Se o mofo estiver sobre boa parte da superfície do queijo, deve-se lavar a peça com água e sal, enxugar com toalha de papel e deixá-la secar no ambiente. Após a secagem, coloca-se a peça em outro saco plástico, limpo e reinicia-se o processo.
Renata Thomazini
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